Capítulo 10: O Que Cai na Água

A máscara de Bento era preta. Sem detalhes, sem bordados. De papel machê, talvez. Comprada com dinheiro do próprio bolso, o que já era uma declaração por si só.

Adele mandou a máscara no pacote junto com o uniforme. Sem aviso. Sem nota. Uma caixa marrom com o endereço escrito à mão em letra que parecia de professor de escola primária. Ele não perguntou de quem era. Percebeu o que significava quando viu a assinatura: não era Sturm. Era alguém que queria que ele não soubesse de quem veio.

A máscara ficava no bolso da jaqueta. Não no bolso do uniforme, que era o lugar reservado para a máscara oficial da escola, a que todos compravam da mesma fornecedora. A de Bento era diferente. Mais pesada. Feita à mão, provavelmente de algum artesão que fazia máscaras para o Festival de Veneza. Havia um fio dourado sutil na borda do olho esquerdo. Não era decoração. Era assinatura.

Valentina achou que a máscara era dele. Não era. Mas o erro funcionou.


A festa era às nove. O Auditório de Vidro era o ponto de encontro. As máscaras venezianas chegavam com os convites, mas o que realmente importava era quem trazia quem. A tradição não se escrevia em lugar nenhum. Era passada de geração em geração pelos alunos mais antigos, como um segredo de família que ninguém questionava. Trazer alguém de baixo era um gesto de poder. Mostrava que você tinha tanto controle que podia permitir que alguém que não pertencia ao círculo entrasse no seu.

Valentina me encontrou na escadaria principal às oito e quarenta. Ela estava no degrau do meio, como se estivesse esperando. Não no topo, onde quem espera de verdade fica. O degrau do meio é calculado. Mostra que você pode subir, mas escolhe não subir.

Ela usava uma máscara de veludo azul escuro. O vestido era simples. Sem etiqueta. Sem marca. Um vestido que não custava nem o que ela gastava em café.

"Você não trouxe sua máscara."

Eu mostrei a máscara preta. Não tirei da jaqueta. Deixe ela ver, mas não entregar.

"Sua é diferente."

"Eu sempre fiz minhas próprias máscaras", ela disse. Mentira. Ela comprava máscaras de grife. Mas naquele momento, mentir era a única coisa que fazia sentido.

"Você veio me buscar.", eu disse.

"Fui.", ela corrigiu. "Você é que demorou."

Eu segui ela até o auditório. A escadaria era larga. Nós íamos lado a lado sem tocar. Mas a distância era de trinta centímetros, não de um metro. No Mont Blanc, um metro é uma parede. Trinta centímetros é uma proposta.


O auditório estava transformado. As luzes eram baixas. Velas em vez de refletores. Máscaras de todos os estilos e cores, de todas as classes e origens. Havia uma máscara de metal no canto que brilhava como ouro. Havia outra de tecido, sem brilho, quase invisível. Havia crianças de Nível 1 vestindo máscaras que pareciam feitas por adultos. E havia alunos que traziam máscaras que pareciam feitas por eles mesmos.

O bar era uma barra de metal polido. O que serviam eram drinks que não tinham nome, só o número. Drink 7, Drink 12, Drink 31. As pessoas não perguntavam o que tinha dentro. Perguntar era sinal de insegurança. Beber sem perguntar era sinal de confiança. Ou de quem já sabia o que estava bebendo e estava provando quem estava do lado.

Eu não bebi. O álcool é uma ferramenta de controle também, e eu não queria perder o controle num lugar onde eu não conhecia as regras.

Valentina pediu Drink 7. Tomou em um gole. Não fez cara. "É bom?"

"É gin com algo que eu não consigo nomear."

"O que você está bebendo?"

"Água."

Ela riu. Riu de verdade. Não o riso que ela usa no Oráculo, calculado, medido, com pausa dramática e ângulo de câmera perfeito. Um riso de quem se esqueceu que existia câmera.


As pessoas circulavam. As máscaras permitiam o que o rosto não permitia. Atrás de uma máscara, você podia ser quem não era. Poderia elogiar sem que parecesse fraqueza. Poderia conversar sem que parecesse interesse.

Havia um espaço central onde tocavam piano. Alguém tocou Chopin. A música era a única coisa que não era calculada. Chegou e foi. Ninguém controlou.

Valentina me puxou pela mão. Não foi suave. Foi direto. "Vem."

Ela me levou até a área da piscina. A piscina era coberta, aquecida, iluminada por baixo d'água com LEDs que mudavam de cor. O mergulho era o ritual final da festa. Todo mundo mergulhava. Quem não mergulhava era expulso. Era o único momento em que a máscara caía e todo mundo ficava nu por dez segundos.

Mas antes de chegar à piscina, cruzamos um grupo.

Quatro pessoas de Nível 1. O uniforme era personalizado. Monogramas bordados à mão no bolso do colete. O loiro de sempre, aquele que eu ainda não sabia o nome, ia na frente. Atrás dele, uma garota de cabelo loiro claro e máscara de cristal que parecia feita de vidro derretido.

Valentina parou. Eu também. Era protocolado. Cruzar Nível 1 sem parar era como ignorar um guarda-chuva de honra militar. Dava problema.

"A Montferrand-Dell'Orto", disse o loiro. Ele não disse "Valentina". Dizia o sobrenome completo como quem lê um contrato. "Não esperávamos que aparecesse."

"Eu sempre apareço quando sou convidada", ela disse. E a frase não foi cortante. Foi gentil. E a gentileza cortava mais. Porque ela significava que eu não era uma Surpresa, era uma escolha. E escolhas implicam poder. O loiro não tinha resposta pra isso.

"Este é Bento", ela apresentou. Sem dizer meu nome completo. Só "Bento". Como se eu fosse alguém. "É meu parceiro do Projeto Alpino."

Eu sorri. Sorri de verdade, que é perigoso num lugar como esse. "O mesmo projeto que você odeia?"

Valentina me olhou. Eu não desviei. O loiro olhou pra mim. Eu não desviei.

"Ele tem a língua afiada", ela disse.

"É a única coisa que ele tem de útil", eu devolvi.

Valentina riu de novo. E foi o tipo de risada que os outros quatro de Nível 1 não esperavam. Eles esperavam defesa. Ou explicação. Ou submissão. Esperaram tudo menos uma pessoa que estava rindo.

O loiro fez uma reverência. Pequena. Calculada. E seguimos.


Dentro de dez metros do grupo, Valentina me pegou pelo braço e me puxou.

"Você sabia que o filho de Stael é filho do presidente de um conselho de mineração que exporta lítio para o Brasil?", ela disse. "O pai de Stael e o meu são concorrentes diretos há uma década. Se o Stael souber que eu me aproximei de você, ele vai entender isso como uma aliança política. E eu não quero aliança política. Eu quero um treino de futebol."

"Então por que você me trouxe pra cá?"

"Porque eu precisava de alguém que não fosse ninguém. Alguém que não representasse nada. Alguém que o Stael não pudesse ler."

"Então eu sou o teu disfarce."

"Sou."

"É humilhante."

"Elegante é ter um disfarce que funciona. Humilhação é ser pego sem."

Ela me ensinou. Não foi uma lição formal. Não foi uma conversa de aula. Foram instruções discretas que ela soltava como quem solta cartas na mesa de pôquer, uma por uma, sem mostrar tudo.

Quando um homem de Nível 2 que eu não conhecia me cumprimentou com o toque de pulso, Valentina apertou meu braço e sussurrou: "Mantenha o pulso. Não recue. Se você recuar, ele lê a sua frequência e sabe que você tá nervoso. Mantenha o pulso e olhe nos olhos. Ele não vai ler nada."

Eu mantive. O homem soltou meu pulso. Eu não recuei.

Quando uma garota de cabelo vermelho que eu também não conhecia me fez uma pergunta sobre o Projeto Alpino com tom de armadilha, Valentina me apertou o braço de novo e disse em voz baixa: "Responda com uma pergunta. Nunca responda uma pergunta com uma resposta. Responda com uma pergunta e faça a pessoa revelar o que quer saber."

Eu fiz. A garota respondeu antes de terminar de perguntar. E eu soube que ela não queria saber do Projeto Alpino. Queria saber de mim.

"Como você sabe tanto sobre tudo isso?" eu perguntei.

"Eles não sabem. E eu não sei." Ela apertou meu braço mais uma vez, mas agora era diferente. Não era instrução. Era um toque que não tinha instrução. "Eu só sei que quando se tem tudo, perde-se tudo. E quem tem tudo e perde tudo é a mesma pessoa que se transforma."


Chegamos à piscina.

A água era azul claro. Iluminada de baixo. Havia escadas laterais com corrimão de ouro. E havia um bloco de saída que parecia feito por um arquiteto e não por um construtor de piscinas.

Alguns já estavam na água. Não todos. O mergulho era obrigatório, mas só no final. Primeiro as máscaras. Depois a água. A ordem era sagrada. Trocar a ordem era perder o significado.

Valentina tirou a máscara. Eu não tirei a minha. Ela me olhou de cima. A máscara preta cobria metade do meu rosto. O olho esquerdo. O direito ficava livre.

"Você não vai tirar a sua?"

"A minha é minha.", eu disse. E não era mentira.

"É do Sturm?"

"Não sei."

"Por que você não tirou?"

"Porque eu escolhi."

Ela me olhou. Por um segundo, o cálculo desapareceu. Não todo. Mas o suficiente pra eu ver.

O tempo do mergulho chegou. Alguém anunciou. Não tinha apito. Só uma voz que disse: "Alguém?" O silêncio seguiu. Quem mergulhava primeiro sempre criava a corrente. Quem não mergulhava primeiro criava a barreira.

A garota de cristal do grupo de Nível 1 foi a primeira. Tirou a máscara. Deitou no bloco. Caiu. A água não fez ruído. Foi suave. Foi elegante.

Ninguém se moveu.

Valentina olhou pro meu olho livre. Eu olhei pro dela.

"Eu não preciso mergulhar", eu disse. "Escolhi não mergulhar. Mas se eu escolher mergulhar, vai ser porque eu quero. Não porque obrigam."

Ela me olhou. Eu não disse mais nada. O silêncio era o espaço que eu deixei pra ela.

Valentina tirou a máscara de veludo azul. Deitou no bloco de ouro. Caiu.

A água não fez ruído. Foi suave. Foi elegante. Mas não foi do Stael. Não foi da garota de cristal. Foi dela. E isso fez toda a diferença.

Ela emergiu do outro lado. A água escorria dos cabelos. A máscara estava no bloco. O cabelo molhado colava na testa. O que eu nunca tinha visto era o cabelo dela fora de uma posição calculada. Sem filtro. Sem ângulo. Sem plateia.

Eu estendi a mão. Ela pegou. Não foi um gesto romântico. Foi um gesto de quem estava afundando num lugar onde não podia se afundar. E a mão não era romântica. Era real.

Saiu da piscina. Eu a segui. A água nos cobriu até os joelhos. Não foi dramático. Foi real.

Ela me olhou. A máscara preta ainda estava no meu rosto. Ela não pediu pra eu tirar.

Ela me beijou.

A máscara de papel machê entre nós. Um tecido de veludo azul no meu rosto. O beijo não foi o de filme. Foi apressado. Mal calculado. Sem ângulo. Sem timing. Sem cuidado. Foi um beijo de quem não pensou e de quem pensou demais e escolheu não pensar. E foi isso que o fez certo.

Ninguém viu. Ou se viu, fingiu não ver. Naquele auditório de vidro, onde tudo é espetáculo, o único gesto que ninguém se importou de filmar foi o beijo.


O resto da festa foi silêncio entre nós dois. Não o silêncio de quem não tem o que dizer. O silêncio de quem já disse tudo.

Nos sentamos num dos bancos ao lado da piscina. Os cabelos de Valentina ainda molhavam. A máscara dela estava na mão. A minha continuava no rosto. Ninguém tirou.

"O que isso muda?", eu perguntei.

"Nada.", ela disse. "Tudo."

"Pra quem?"

"Pro que não pode mais ser o que era."

Eu não respondi. Não havia resposta. O beijo não era uma resposta. Era uma pergunta que ninguém ia responder.

Alguém tocou piano de novo. Era o mesmo piano. A mesma sala. As mesmas máscaras. Mas a distância entre os dois de nós dois era outra. Era trinta centímetros de agora. Antes era um metro. O metro que separava uma aliança estratégica de uma escolha pessoal.

Valentina olhou pro bloco de ouro onde ela tinha mergulhado. A água ainda brilhava.

"Agora", ela disse, "o que a gente faz?"

"Esperamos.", eu disse. "O jogo sempre dá o próximo lance."

Ela encostou o ombro no meu. Não calculado. Não ensaiado. Sincero. E o silêncio que se seguiu não era mais entre dois lados. Era entre duas pessoas que finalmente tinham parado de jogar.

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